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É preciso reimaginar o sucesso

Imagem por Alina Grubnyak no Unsplash

Durante quase toda minha adolescência sempre questionei o conceito de sucesso que estava estabelecido dentro daquele universo bolha privilegiado que habitava. Ter o carro do ano, casa própria, diploma universitário, casar e constituir família eram sinônimo de êxito. Materialidades e conquistas de quem havia vencido na vida.

Com o passar do tempo, ampliamos nossos horizontes, vamos nos descobrindo, percebendo o que realmente faz sentido em nossas vidas e resignificando alguns conceitos. As vivências e a trajetória de cada indivíduo são particulares, tornando a definição de sucesso algo subjetivo. No entanto, é inegável que para grande parte da sociedade, ele ainda está absolutamente associado ao enriquecimento financeiro e, consequentemente, ao consumo de bens. Busca-se o sucesso individual a partir dos valores do outro, naquilo que nos foi imposto e nos fizeram acreditar, em condições que não condizem mais com a realidade do mundo. Uma crença que foi alimentada ao longo da nossa história, mas que agora está sendo fortemente questionada, principalmente pelas gerações mais novas.

Ainda vivemos em uma sociedade que considera uma condição normal e saudável o crescimento contínuo dos níveis de produção e o consumo desenfreado. Estamos estabelecidos dentro de um sistema que visa pura e simplesmente a maximização dos lucros financeiros e o crescimento do PIB a qualquer custo, que concentra riqueza e amplifica a desigualdade social. Um modelo em que a prosperidade está baseada na exploração insustentável dos recursos naturais do planeta, levando-o muito próximo do seu limite.

Essa é uma construção coletiva para um novo modelo operacional econômico capaz de reinventar a forma como vivemos, nos relacionamos, produzimos e geramos valor. É fundamental que esse questionamento seja feito por todas as esferas da sociedade e, invariavelmente, pela iniciativa privada.

Negócios precisam se adaptar para prosperarem em um mundo finito, adotando padrões de produção e consumo mais sustentáveis em termos financeiros, sociais e ambientais, onde o objetivo final seja mais do que a potencialização dos lucros e a liderança de mercado.

Para economista, pesquisadora e autora do modelo de Economia Donut Kate Raworth, é possível prosperar sem crescer. Sua visão de que é preciso reimaginarmos o conceito de sucesso e nossas métricas de prosperidade também é compartilhada no documentário “Nosso Planeta, Nossos Negócios” da World Wide Fund for Nature (WWF).

Mudar a lógica tradicional de mensuração de sucesso baseada apenas no resultado financeiro é algo desafiador, principalmente por se tratar de uma estratégia também enraizada na cultura dos negócios. Entretanto, organizações orientadas por um propósito estão compreendendo esse movimento e buscando novas formas de existir, engajando e conectando pessoas a causas, tornando-se verdadeiras plataformas geradoras de valor e de impacto socioambiental. É aí que está a mudança da chave.

Tais organizações possuem uma visão sistêmica, se vêem como organismos vivos e interdependentes, onde suas relações e ações impactam no todo. Para elas, o sucesso não é definido apenas pelo lucro, mas também pela relevância da empresa no ecossistema mais amplo e suas contribuições práticas para redução dos problemas da humanidade.

Algumas marcas estão conectando suas estratégias de negócios à agenda global a fim de avaliar o potencial transformador de suas atuações, incluindo a abordagem dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecida pela ONU e composta por 17 objetivos e 169 metas a serem atingidos até 2030. Outras iniciativas fortalecem este movimento, como as Empresas B, organizações que valorizam os resultados econômicos e socioambientais igualitariamente, e o Capitalismo Consciente, instituto que busca levar práticas de gestão mais éticas, humanas e sustentáveis para dentro das empresas.

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU

Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU

Para se ter uma ideia prática do que estamos falando, entre os indicadores avaliados e considerados para se determinar o sucesso dessas marcas estão a distribuição de riqueza entre stakeholders, emissão de gases de efeito estufa, capacidade de reciclagem dos resíduos gerados, qualidade das relações entre a cadeia de valor, engajamento e lealdade de colaboradores e fornecedores, diversidade e equidade de gênero nos níveis operacionais e gerenciais.

“É possível prosperar sem crescer.”

Independentemente do tamanho do negócio, a transição para este novo paradigma depende, fundamentalmente, da sensibilização e de uma tomada de consciência por parte das pessoas que vivem e fazem a marca no dia a dia. A partir disso, é preciso uma estratégia de negócios clara e bem estruturada, e um esforço pela busca de uma conscientização coletiva, com colaboradores e stakeholders alinhados ao propósito da marca.

O momento exige que olhemos para além do nosso próprio umbigo, desfazendo a visão de que somos separados um dos outros e de todas as coisas. A prosperidade vai além do dinheiro que se ganha, ela está no crescimento conjunto baseado em relações ganha-ganha, na geração de bem-estar e no fortalecimento do todo — pessoas, marcas e meio ambiente.

Felipe Johann

12 de outubro de 2020